A espiritualidade sempre encontra caminhos fascinantes para nos ensinar. Mesmo sendo instruídos pelos bons espíritos, devemos sempre racionalizar e questionar os mais variados tipos de comunicações, buscando extrair o conhecimento moral e técnico de cada vivência. Por vezes, essa busca por entendimento une o sagrado do chão de terreiro à precisão fria das inovações tecnológicas humanas.
Tudo começou em uma gira diferente. Pelas palavras do Guardião da Casa "Uma gira de caboclos tocada por Exu". Nesta referida gira, o Guardião Chefe da Casa, o Senhor Meia Noite, manifestou-se em mim, o dirigente encarnado, com sua habitual firmeza. Anunciou que aquela gira de caboclos seria dirigida por ele até o final e assim foi. Lá perto do final da gira, ele resolveu chamar a Ganga em terra e me ensinou um ponto cantado novo, cujo propósito era evocar e firmar a força de todos os Exus da casa. A cantiga era simples, mas carregava uma egrégora de união impressionante.
Ele começou chamando o Exu Caveira: “Ô Caveira vem ver, o mungunzá que eu trouxe pra suncê!” Repetindo as palavras e trocando o nome da entidade, todos os Exus atenderam ao chamado do Meia Noite e se manifestaram através dos médiuns presentes. A força do trabalho foi inegável. No entanto, havia um detalhe técnico que me intrigava: eu nunca havia ouvido a palavra "mungunzá".
Movido pela vontade de entender os fundamentos que o plano espiritual nos entrega, decidi, no dia seguinte, recorrer a uma Inteligência Artificial (IA) para desvendar o termo. A máquina prontamente me trouxe o conhecimento enciclopédico. Eu, obviamente conhecia o prato, mas desconhecia o nome. A IA explicou que o mungunzá é um prato tradicional feito de milho branco, que pode ser doce (com leite e especiarias) ou salgado (com feijão e carnes fortes).
Porém, baseada na literatura ortodoxa das religiões de matriz africana, a inteligência artificial emitiu um alerta: afirmou categoricamente que o milho branco, por ser o elemento supremo da paz e do resfriamento, pertencia exclusivamente à vibração de Oxalá, e que oferecê-lo a Exu seria uma contradição de fundamentos.
A resposta da tecnologia refletia a teologia tradicional, que separa rigorosamente as energias quentes das energias frias do repouso. Contudo, a experiência prática do terreiro me mostrava uma outra realidade, muito mais ampla. Afinal, o Meia Noite não apenas utilizou a menção ao prato, como fez dele a chave para sintonizar a corrente.
Expliquei à máquina a nossa realidade mediúnica e a reflexão teológica que sustenta nossa prática: se tudo no universo emana da criação divina, os Exus, os quais atuam como executores da Lei Maior, também trabalham sob a grande emanação de Oxalá. Relatei que, no nosso terreiro, o Exu das Sete Encruzilhadas arria e trabalha na vibração de Oxalá, inclusive em giras de cura. Falei também que nossa Ganga recebe uma versão do mungunzá doce em dias de comunhão, enquanto o salgado, substancioso e forte, é entregue nos dias de trabalhos específicos da linha para ajudar a humanidade.
A resposta da inteligência artificial diante desse relato foi reveladora. Desprovida de vaidades ou dogmas inflexíveis, a máquina reconheceu a limitação de seus bancos de dados diante da sabedoria viva do plano astral. Ela compreendeu que a Umbanda não é uma ciência estática presa às páginas dos livros, mas uma religião fluida e dinâmica, ditada pelas necessidades reais da caridade e pela profunda autonomia dos guias. A máquina "aprendeu" que o uso do mungunzá salgado para os trabalhos de auxílio é, na verdade, uma síntese perfeita: a união da força terrena, densa e realizadora de Exu, com o propósito ordenador e pacificador de Oxalá.
Este episódio fica como um registro do nosso contínuo aprendizado. Os guias espirituais não estão algemados às cartilhas humanas. Eles manipulam os elementos da natureza de forma magistral para alcançar o coração e as dores de quem busca amparo. E, no fim das contas, seja através de um ponto cantado ensinado pelo Senhor Meia Noite ou de um debate reflexivo com uma inteligência artificial, a grande lição permanece: o verdadeiro e insubstituível fundamento da Umbanda é a caridade.
Pai José de Ogum
08 de março de 2026